“78 dias de amor” – Homenagem à escritora Turmalina Teles

* Por Vanessa Teles

Bom… Eu não sou escritora, mas esse texto vem me incomodando para sair da minha cabeça há alguns dias. Minha avó escreve, e me falou que era assim: as coisas vêm à cabeça, e pronto! 

Dito isso, quero começar esta história. Infelizmente, é mais uma história sobre a pandemia que estamos vivendo. Mas, leia até o final, acredito que você irá se surpreender!

Para começar, preciso falar brevemente da minha avó. Ela tem 84 anos, mora sozinha, é independente e alegre. Escreve, canta, dança. Ela tem uma energia de dar inveja a qualquer mocinha de 20 e poucos anos. É algo encantador! Ela brilha tanto que tem o nome de uma pedra. Eu não sei dizer se essa pedra é ou não preciosa, mas minha avó é!

Essa história não é sobre ela, exatamente, mas sobre mim e tudo o que ela me ensinou.

Em dezembro de 2019, ela foi pega de surpresa por uma cirurgia no coração. Era um exame de rotina, e ela acabou indo para a UTI. O médico disse que não sabia como o coração estava bombeando o sangue dela de pingado e ela ainda estava, aparentemente, normal. Ele disse: ela é muito forte!

Agora, imagina você, perto do fim de ano, querendo comemorar com quem ama, e eis que, repentinamente, acorda numa cama de UTI, com a notícia de que será operada com urgência. Ela passou Natal, Ano, enfim… Algum tempo ali, internada, e tudo foi muito sofrido.

Nunca a vi tão frágil. Jamais imaginei que uma cirurgia de ponte de safena maltratasse tanto! Ela estava muito fraca e sem muita energia, e, pior de tudo: ela estava triste! Pois bem, eu, nos meus 35 anos de idade, nunca tinha visto minha avó triste. Nem lembrava de quando eu tinha visto ela chorar. Ela, para mim, é símbolo de força, de vitalidade, de amor e de energia infinita.

Enfim… Meses se passaram e a recuperação era lenta. Ela estava na casa do filho e o ambiente bucólico a deprimia. Ela gosta de cidade, de barulho. Passar o dia olhando para o mato parecia que estava fazendo ela definhar aos poucos.

Foi então que a convidei para passar um final de semana na minha casa, e… Pasmem! Ela ficou por 78 dias!

A pandemia começou repentinamente por aqui. A gente havia ido ao salão de beleza e ao Pilates juntas. Depois, ouvimos na TV a notícia de que todo mundo teria de se trancar. Era um vírus desconhecido e mortal, que estava (e ainda está, infelizmente) matando à toa. Num dia, você estava bem; no outro, era intubado e morria. Parecia um filme de terror, só que era real! Naquele início pandêmico, pouco se sabia: não era aconselhado o uso de máscara, pois ela podia faltar para um profissional de saúde. Tínhamos poucas informações e recomendações, além da orientação de isolamento completo para evitar o contágio.

Pois bem, anunciaram “lockdown” no Recife. Eu nunca tinha nem ouvido essa palavra. A única coisa que fiz foi falar com meu marido para minha avó ficar aqui. Eu não conseguia nem imaginar o que poderia acontecer se ela fosse pega por esse maldito vírus!

Enfim… Ficamos aqui, trancadas, enquanto o tempo passava. Era março e eu tinha até agosto para defender minha dissertação de mestrado. Ainda faltava muita coisa, inclusive o capítulo de análises, que era fundamental. As aulas tinham passado para o regime remoto e, de repente, a gente estava aprendendo milhares de aplicativos para ensinar. O caos estava absolutamente instalado na vida de todas as pessoas do mundo, mas não na minha!

Naqueles meses, resolvi deixar minha pesquisa em “stand by”. Era aquilo… um vírus mortal por aí, todo mundo trancado, e eu tendo de manter a sanidade mental. Então, resolvi não surtar me cobrando uma produtividade que não fazia o menor sentido à época.

Resolvi que minha missão seria apenas uma: cuidar da minha vó! E foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido! Nossos dias eram divertidos, e, mesmo ela estando tristinha e com dor, muitas vezes nos divertíamos juntas. Ela chegou bem enjoadinha para comer, os remédios a deixavam assim, mas, aos poucos, ela foi melhorando e aceitando nossa comida.

Pela manhã, era tapioca com suco, que meu marido fazia. No almoço, ela só queria macarrão, então eu fazia macarrão de arroz, e, à noite, era uma sopa que eu fazia – com tudo dentro!

Nos dias em que eu não dava aula, a gente assistia desde a novela mexicana das 17:00 até à novela das 22:00. Eu dava banho nela, passava talco, pomadas, esquentava água, e dava banho de balde! Colocava um som ao lado dela, para ela dormir, e conversávamos até ela pegar no sono. Desde então, ela me chama de “Maenha”.

Ela passou um tempo com um buraco no peito, pois houve rejeição a um tipo de fio colocado na cirurgia, então, não podia tomar banho de cabeça. Recebíamos, em casa, uma enfermeira de 2 a 3 vezes na semana; e, por vezes, a podóloga, pois as unhas dela são extremamente encravadas e ela é diabética, o que tornava perigoso qualquer um fazer a unha dela. Seguíamos todos os protocolos para receber aquelas profissionais, que eram bastante cuidadosas. Por sinal, curiosamente, as duas se chamam Marília. Nesse tempo, já se sabia da máscara, do distanciamento, do álcool.

Nos fins de semana, a gente pedia almoço gostoso em algum restaurante. Na nossa Páscoa, recebemos ovos de chocolate pelo “delivery” e, no último dia dela aqui, pedi um almoço num restaurante bem chique. Ela estava forte e linda, e foi para casa, voltar à rotina dela, com as coisinhas dela! Isso encheu meu coração de felicidade!

Quando ela saiu daqui, após 78 dias de cuidados, faltava mais ou menos 1 mês para a minha defesa. Deus e meus amigos me ajudaram muito! Corri, e deu tudo certo! Hoje, sou Mestra em Engenharia Civil, e defendi minha dissertação de forma remota e muito emocionante! Inclusive, minha avó assistiu da casa dela, e ainda falou, ao final de tudo!

O mais interessante é que ela acha que me deu muito trabalho, mas o que ela me deu mesmo foi muita força! Ela me colocou numa bolha de amor, num universo paralelo, onde as notícias ruins não me consumiam!

O que eu quero te dizer contando essa história? Bom… Às vezes, ao invés de enxergarmos as oportunidades que o universo está nos dando, nos prendemos ao lado ruim de tudo! Claro que sou absolutamente privilegiada, pois, neste momento tão difícil, nada me faltou de forma material ou emocional. Mas, eu poderia, sei lá, ter surtado – porque minha dissertação estava batendo na porta, minha avó estava fraca e doente, precisando de mim, e ainda tinha (e tem) um vírus mortal matando geral lá fora!

O que quero dizer é que, muitas vezes, temos opções, mas não temos sabedoria para enxergá-las! Eu tinha a opção de surtar e me deprimir, pois meu Mestrado era algo que já se arrastava pro terceiro ano e eu não tinha mais como prorrogar o prazo, mas eu optei por, simplesmente, relaxar! Isso mesmo! Optei por me entregar ao grande amor que sinto por ela e dar o meu melhor, pois ela era muito mais importante para mim do que qualquer título! E, acreditem: nos 30 dias restantes, eu produzi muito mais do que em muitos meses, pois, não só minha mente estava tranquila, mas meu coração estava com aquele sentimento bom de missão cumprida!

Eu não sou absolutamente ninguém para te dar uma lição, mas sou alguém que pode te passar o que aprendeu: priorize quem você mais ama e sua saúde mental. O restante, pode esperar!

* Vanessa Teles é arquiteta e professora universitária.

Deixe uma resposta